Entre promessas de cooperação e disputa geopolítica, as cúpulas de IA expõem os limites de uma coordenação internacional ainda incipiente
Eduardo Felipe Matias
Como governar uma tecnologia de alcance global, impulsionada por atores que também operam globalmente, sem contar com acordos e instituições igualmente globais? Nos últimos anos, cúpulas internacionais sobre inteligência artificial (IA) têm buscado discutir essa questão e, quem sabe, plantar a semente dessa governança. Observar essas discussões, encontro após encontro, ajuda a indicar em que direção ela pode crescer.
Do AI Safety Summit de 2023, em Bletchley Park, no Reino Unido, ao AI Impact Summit realizado em Nova Délhi em fevereiro deste ano, essa sequência de reuniões tem funcionado como um termômetro dos temas vistos como prioritários em IA. Com o passar do tempo, a preocupação com a segurança não desapareceu, mas deixou de dominar sozinha o debate, ganhando a companhia de temas como negócios, infraestrutura, qualificação de pessoas e soberania digital.
A evolução das cúpulas demonstra essa mudança. Bletchley Park colocou no centro os riscos trazidos pelos modelos de IA de fronteira e a necessidade de garantir que eles sejam seguros. Seul, em 2024, procurou combinar segurança com inovação. Paris, em 2025, enfatizou a competitividade, relegando segurança e regulação a um segundo plano diante de promessas de investimento e do argumento de que normas mais rígidas poderiam deixar países para trás na corrida da IA. Em Nova Délhi, o foco foi menos no risco abstrato e mais em questões relacionadas à implementação da IA. A própria evolução da nomenclatura dos encontros, de “segurança” para “ação” e agora “impacto”, sintetiza esse deslocamento.
Realizada pela primeira vez no Sul Global, a cúpula de Nova Délhi incorporou pautas centrais para os países emergentes, com a Índia defendendo uma agenda de “IA para todos”, apresentada como forma de democratizar essa tecnologia. Na prática, a ênfase recaiu mais sobre assuntos que mobilizam governos – como capacidade computacional e desenvolvimento econômico –, do que sobre temas caros à sociedade civil – como inclusão e direitos humanos.
O evento teve forte componente de feira de negócios, com novos anúncios de investimentos e a presença de startups e de CEOs das principais empresas do setor, como Sundar Pichai, da Alphabet/Google, Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic. Para além do aspecto empresarial, a cúpula reforçou três preocupações que hoje atravessam o debate sobre IA.
A primeira se refere ao mercado de trabalho. Seja pelo receio do desemprego, seja pela busca de produtividade e competitividade, a reunião deu destaque ao capital humano e à necessidade de requalificação e letramento digital. A segunda é com a sustentabilidade da IA, tratada sobretudo sob a ótica da eficiência energética e da resiliência da infraestrutura. A terceira é quanto à soberania digital, entendida não como autossuficiência, mas como a capacidade de um país governar dados, reduzir dependências críticas e assegurar, de preferência sob sua jurisdição, acesso confiável a infraestrutura estratégica, como nuvem, chips e data centers.
A dimensão geopolítica, já visível desde Paris, tornou-se ainda mais explícita em Nova Délhi. Na cúpula francesa, o vice-presidente norte-americano JD Vance advertiu que a regulação excessiva poderia “matar” uma indústria transformadora. Na Índia, o chefe da delegação americana afirmou que os EUA “rejeitam totalmente” uma governança global da IA, reafirmando a prioridade dada ao rápido desenvolvimento da tecnologia e a resistência a arranjos internacionais que possam reduzir a vantagem competitiva de quem hoje lidera essa corrida.
Essa posição ajuda a explicar por que qualquer ambição de governança global mais efetiva esbarra na concentração de capacidade tecnológica, capital, infraestrutura e empresas-chave nos EUA e na China. Mesmo quando endossam declarações coletivas amplas, como ocorreu em Nova Délhi, sem um compromisso efetivo dessas duas potências, as tentativas de regular a IA tendem a ter pouco alcance real.
Esse limite se refletiu nos principais resultados formais da cúpula: a Declaração sobre o Impacto da IA e um conjunto de iniciativas associadas. Embora sinalizem alguma convergência, esses documentos não detalham cronogramas, mecanismos de financiamento ou monitoramento, nem estruturas institucionais capazes de concretizar as ambições enunciadas. São, além disso, instrumentos voluntários e não vinculantes, algo recorrente em processos multilaterais.
As negociações climáticas oferecem um paralelo ilustrativo. Mesmo após décadas de tratativas e apesar de uma arquitetura mais consolidada, esse regime ainda enfrenta dificuldades de cumprimento e fiscalização compatíveis com a urgência do aquecimento global. No campo da IA, em que as transformações tendem a ser mais aceleradas, o desafio pode ser ainda maior.
No fim, voltamos à questão da qual partimos. Diante do alcance e do impacto da IA, sua governança não pode depender apenas de declarações genéricas e compromissos voluntários envolvendo alguns países. As cúpulas seguem sendo importantes porque ajudam a identificar prioridades e a construir objetivos comuns, mantendo aberta a possibilidade de cooperação. Mas, sem mecanismos internacionais mais robustos e sem o engajamento efetivo dos principais atores da IA, a semente de uma governança apta a orientar o desenvolvimento dessa tecnologia não fincará raízes nem produzirá uma resposta à altura.
Publicado originalmente na edição de maio da revista Época Negócios. Versão online publicada em 5/6/26 aqui: Semeando a governança global da IA