O avanço da IA e das plataformas digitais redefine a economia, o trabalho e a democracia, impondo novos riscos e desafios
Basta olhar o último mês de março para perceber que a governança do poder digital passou a ocupar o centro do debate público. Considerando apenas o que ocorreu no Brasil, o ECA Digital entrou em vigor, com novas exigências para as plataformas e maior proteção a crianças e adolescentes. Na Câmara, uma comissão aprovou um novo projeto sobre regulação da inteligência artificial (IA), enquanto segue em tramitação o texto mais abrangente já aprovado pelo Senado. E o TSE definiu as regras para o uso de IA nas eleições de 2026.
Esses fatos apontam para uma das questões centrais do nosso tempo: o papel decisivo que as plataformas digitais e a IA passaram a exercer na vida coletiva. Em meu novo livro, A humanidade e o poder digital: impactos da IA sobre nosso futuro, lançado neste mês, examino como a ascensão desse novo ator e dessa tecnologia marcante deu origem a uma configuração de poder capaz de reorganizar a economia, afetar o trabalho, remodelar a esfera pública e tensionar a democracia.
A IA é a tecnologia mais emblemática deste tempo. Ela automatiza decisões, suscita questões éticas, produz efeitos econômicos e pressiona as instituições, exigindo novos modelos de governança. Muitos desses sistemas operam como caixas-pretas imprevisíveis, o que dificulta definir limites, identificar vieses, regular seu funcionamento e responsabilizar agentes cada vez mais autônomos. A IA também não é neutra. Escolhas de valores podem ser embutidas na arquitetura dessas ferramentas de modo invisível ao público, o que torna ainda mais urgente ampliar sua transparência. A difusão do solucionismo tecnológico, que trata problemas políticos e sociais como se fossem meros obstáculos técnicos, agrava esse risco. Também preocupa o avanço de uma inteligência artificial geral, ou AGI, capaz de realizar uma ampla variedade de tarefas de modo semelhante ao humano, sobretudo se ela evoluir para uma superinteligência artificial. A possibilidade de que uma tecnologia dessa natureza escape de controle torna necessário alinhar seus objetivos aos nossos.
No mercado de trabalho, IA e automação podem ameaçar empregos, transformar ocupações e aprofundar desigualdades, enquanto os ganhos de produtividade tendem a ficar nas mãos de poucas pessoas, empresas ou países. A resposta passa por usar a IA de forma complementar às capacidades humanas, criar novas ocupações e adotar políticas públicas de qualificação profissional e redistribuição de renda.
As grandes plataformas digitais, controladas pelas big techs, consolidaram-se em um ambiente no qual internet, dispositivos conectados, big data e algoritmos ampliaram sua capacidade de capturar atenção e sustentar um modelo de negócios centrado na maximização do engajamento e na extração de dados comportamentais. Com isso, reforçam sua posição dominante e podem induzir comportamentos e influenciar a opinião pública.
Essas empresas exercem hoje um poder normativo sem precedentes. Quando softwares, algoritmos e termos e condições de uso definem regras, arbitram disputas e aplicam sanções, emerge uma nova forma de soberania funcional, na qual a praça pública digital e a própria liberdade de expressão passam a depender de uma governança privada que nem sempre se submete ao escrutínio público. Somada à vigilância constante, ao controle de dados e à capacidade de persuasão dos sistemas algorítmicos, essa dinâmica põe em jogo não apenas a privacidade, mas também o livre-arbítrio.
A tecnologia, além disso, não é democrática por si só. As mesmas ferramentas digitais que ampliam o acesso à informação e ajudam a mobilizar protestos também podem ser usadas por governos autoritários para vigiar, censurar e neutralizar a oposição. Mesmo em regimes democráticos, a lógica de engajamento das redes sociais favorece conteúdos mais radicais e emocionalmente carregados, alimenta câmaras de eco e amplia a circulação de desinformação. Fake news, redes coordenadas de bots e trolls, microdirecionamento de mensagens e deepfakes podem comprometer a integridade de processos eleitorais. A moderação de conteúdo, por sua vez, cria outro dilema, já que decisões pouco transparentes ou sem critérios consistentes alimentam discussões sobre censura, arbitrariedade e legitimidade.
Apesar desses riscos, seria simplista tratar como vilãs as tecnologias da era digital e as empresas que hoje dominam esse ambiente. A conjuntura atual exige uma visão menos maniqueísta e mais atenta às nuances. Não se trata de frear a inovação. Regulação e inovação não estão em contradição. Ao contrário, a primeira pode contribuir para a segunda. O desafio é mitigar riscos, proteger usuários, estimular a concorrência e, ao mesmo tempo, preservar os benefícios que essas tecnologias podem oferecer à sociedade.
Governar o poder digital é uma das maiores tarefas institucionais da atualidade. Isso exige enfrentar obstáculos técnicos e políticos, lidar com a complexidade dos sistemas e acompanhar a velocidade das inovações. Não há soluções simples nem modelos prontos. É preciso construir, com análise rigorosa e reflexão pública, instrumentos capazes de proteger direitos fundamentais, preservar a autonomia individual e garantir que as novas tecnologias estejam a serviço do interesse público, e não o contrário. Entender essas transformações é o primeiro passo para não sermos arrastados por elas. Só assim preservaremos a capacidade de escolher, de forma consciente, nosso próprio rumo.
Eduardo Felipe Matias é autor do livro A humanidade e o poder digital e das obras A humanidade e suas fronteiras e A humanidade contra as cordas, ambas premiadas com o Jabuti, e coordenador do livro Marco Legal das Startups. Doutor em Direito Internacional pela USP, foi visiting scholar nas universidades de Columbia, em NY, e Berkeley e Stanford, na California, e é professor convidado da Fundação Dom Cabral e sócio da área empresarial de Elias, Matias Advogados
Publicado originalmente na edição de abril da revista Época Negócios: Quem irá controlar o poder digital?