Eduardo Felipe Matias

Na Bienal do Livro, bate-papo com o autor de “A Humanidade e o Poder Digital” discute impactos da IA sobre trabalho, democracia e poder

Em conversa mediada por José Eli da Veiga e seguida de uma sessão de autógrafos, Eduardo Felipe Matias, autor de […]

Na Bienal do Livro, bate-papo com o autor de “A Humanidade e o Poder Digital” discute impactos da IA sobre trabalho, democracia e poder

Escrito por

Eduardo Felipe Matias

Publicado em

09 set. 2026

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5 min de leitura

Em conversa mediada por José Eli da Veiga e seguida de uma sessão de autógrafos, Eduardo Felipe Matias, autor de “A humanidade e o poder digital” discutiu os efeitos da inteligência artificial sobre emprego, redes sociais e desigualdade, além dos desafios de governar uma tecnologia que avança em ritmo acelerado

Trabalho, democracia, concentração de poder e regulação estiveram no centro do bate-papo do autor Eduardo Felipe Matias na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Na noite de 9 de setembro, no estande do Sesc e do Senac, ele conversou com o professor José Eli da Veiga sobre as principais questões de seu livro A humanidade e o poder digital: impactos da IA sobre nosso futuro, publicado pela Editora Senac São Paulo. A discussão, que foi seguida de uma sessão de autógrafos, partiu dos efeitos já visíveis da inteligência artificial para chegar a uma questão mais ampla: como fazer com que os avanços tecnológicos estejam a serviço da sociedade, e não o contrário.

(texto continua após o vídeo abaixo):

O primeiro tema foi o futuro do trabalho. A conversa explorou a possibilidade de a IA ampliar a produtividade e as capacidades dos profissionais, mas também o risco de aprofundar desigualdades. O autor destacou que a automação precisa ser observada menos pelo prisma do desaparecimento de profissões inteiras e mais pela transformação das tarefas que as compõem. A IA generativa alcança atividades cognitivas antes consideradas relativamente protegidas e pode afetar de maneira diferente cada etapa de uma carreira. Particular atenção foi dada às funções de entrada no mercado, nas quais tarefas mais facilmente automatizáveis cumprem também um papel de aprendizagem e formação de profissionais. Nesse cenário, o desafio para as empresas é utilizar a tecnologia para complementar as capacidades humanas, e não apenas para substituir trabalhadores, enquanto governos e sistemas educacionais precisam preparar as pessoas para uma realidade de qualificação contínua. A questão distributiva permanece no centro do problema – ganhos de produtividade podem aumentar a riqueza e, ainda assim, ampliar desigualdades caso seus benefícios fiquem concentrados.

Na sequência, o debate passou à relação entre redes sociais e democracia. Se a internet reduziu barreiras à participação e multiplicou as possibilidades de expressão, a praça pública criada no ambiente digital passou a operar em espaços privados e organizados por algoritmos. A lógica de maximização do engajamento pode favorecer conteúdos emocionalmente carregados, enquanto desinformação, bots, microdirecionamento e, mais recentemente, conteúdos produzidos por IA aumentam a velocidade e a escala da manipulação informacional. Os deepfakes acrescentam um problema adicional, já que, além de tornar falsificações mais convincentes, podem corroer a confiança no próprio conteúdo autêntico. O desafio, discutiu-se, é responder a esses riscos sem transformar plataformas ou governos em árbitros absolutos da verdade. A moderação de conteúdo precisa conviver com liberdade de expressão, transparência, possibilidade de recurso e critérios proporcionais à capacidade de cada plataforma.

O terceiro eixo levou a conversa diretamente ao conceito que dá título ao livro. Para Matias, o poder digital não se resume ao poder das big techs. Ele diz respeito à capacidade de quem detém ou governa tecnologias digitais de moldar ambientes, decisões e comportamentos – seja uma empresa que controla uma plataforma ou um sistema de IA, seja um Estado que utiliza tecnologias de vigilância. Esse poder se manifesta no controle da infraestrutura, dos dados e dos algoritmos e ganha uma nova dimensão com a inteligência artificial. Hoje, porém, boa parte dessas capacidades está concentrada nas grandes empresas de tecnologia, favorecidas por efeitos de rede, economias de escala, acúmulo de dados e domínio de infraestrutura e capacidade computacional. Além do poder econômico, as plataformas adquiriram uma dimensão normativa, ao estabelecer regras, arbitrar conflitos e determinar o funcionamento dos ambientes digitais em que bilhões de pessoas interagem.

As perguntas do público prolongaram a conversa, com destaque para o papel da IA na educação. O debate abordou tanto seu potencial como ferramenta de apoio ao aprendizado quanto o risco de substituir etapas fundamentais da formação intelectual. Se a IA pode facilitar pesquisas, organizar informações e ampliar o acesso ao conhecimento, seu uso sem mediação pode enfraquecer justamente atividades pelas quais se desenvolvem pensamento crítico, capacidade de argumentação e julgamento. A discussão retomou, assim, o fio que atravessou todo o encontro: o desafio não é simplesmente decidir quanto da nova tecnologia utilizar, mas estabelecer para que fins e sob quais condições ela deve ser empregada.